Considerações: O arquétipo da criança e a representação do Si-mesmo
- silviamhac6
- 21 de dez. de 2025
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O arquétipo da criança é um bom exemplo de como essas imagens primordiais aparecem em mitos, contos, sonhos e também em fantasias psicóticas. Esses motivos na nossa psique são manifestações involuntárias, e nos mitos são formações tradicionais que podem remontar a idades incalculáveis. Remetem a um mundo originário, primitivo, algo independente de qualquer esforço da vontade. Já dizia Jung: “a mentalidade primitiva não inventa mitos, mas os vivencia”, pois são “revelações da alma pré-conscientes” (Jung, 2013, §261). Os conteúdos arquetípicos se manifestam através do inconsciente coletivo, ou seja, algo essencialmente inconsciente. É um motivo extremamente mutável e espaço para elementos que esquecemos da própria infância, mas também de uma “infância da alma coletiva” (Jung, 2013, §270).
Considerando que esses conteúdos se desenvolvem, em primeiro lugar, metaforicamente, o simbolismo da “criança divina” é misturado com outros aspectos do arquétipo da criança. Manifesta-se através do Menino Jesus, mas também em folclore na forma de elfos, anões e forças divinas da natureza. Até mesmo Mercúrio, nascido em sua forma hermafrodita.
Em experiências psicológicas, uma visão de si mesmo como criança, acontecendo em sonhos ou em estados de vigília, podem vir de dissociação prévia entre passado e presente; entre presente e estado de infância. Apresenta uma situação favorável para a pessoa se deparar com sua verdade originária, muitas vezes escondida em uma persona arbitrária. Ou seja, não representa apenas algo que existiu no passado distante, mas algo que está presente em nossa vida, que funciona ainda, que tem a função de corrigir unilateralidades ou extravagâncias da consciência. E também traz o caráter de futuro: “A criança é o futuro em potencial” (Jung, 2013, §278), não surpreendendo que salvadores míticos vêm em forma de crianças divinas, mostrando que elas preparam para uma mudança de personalidade. São símbolos de unificação de opostos, salvação e completude (algo chamado de “enteléquia”, uma espécie de síntese, por Jung).
A imagem pode aparecer como divina ou herói infantil, ambos os tipos mostram o nascimento miraculoso e as adversidades da primeira infância (abandono, perigo de perseguição). O primeiro como sobrenatural e o outro como humano. Esse motivo do herói traz a sensação de insignificância e representa a dificuldade de se atingir a totalidade e mostra também a complexidade do processo de individuação, desde seu início. É a pequenez misturada com feitos maravilhosos, paradoxo essencial no herói vivido em todo seu destino.
Em Cristo, Jung concebe Deus no homem como símbolo do Si-mesmo, ou Self. Ele representa, como símbolo, algo maior que o ego médio, ou o homem comum. Não reafirma a existência de Deus de forma empírica, mas se refere ao sentimento de se fazer parte de uma divindade, em algo fora da ordem usual das coisas. Livre de dogmas e intelectualizações, as religiões se apoiam nessa experiência do grandioso.
Cristo enquanto Deus (consubstancial ao Pai) ou o Atman, quanto etapa do si-mesmo individual e essencial do cosmos, ou o Tao, enquanto estágio individual e processo correto dos acontecimentos universais. Psicologicamente, a esfera do divino começa imediatamente do outro lado da consciência, onde o homem se acha entregue ao risco da instância natural. Ele designa os símbolos da totalidade que daí provém com diversos nomes, conforme épocas e lugares (JUNG, vol. 11/2 §231 apud SAMUELS, 2024).
A criança, portanto, não é um ser somente do começo, mas também um ser do fim, simbolizando a essência humana pré-consciente e pós-consciente. Ela abrange a totalidade da realidade anímica, que envolve uma dimensão mais velha e mais nova que a consciência
Enfim, a representação do Si-mesmo é bem traduzida por Roberto Gambini: se manifesta na vida “quando sinto um amor no coração, quando percebo em mim uma força de lutar contra as forças anti-vida; quando sei que há clareza em minha mente; quando olho para o mundo e parece que entendo, ou entendo as pessoas, ou quando sinto uma conexão com inexplicáveis fios que a tudo unem num sutil tecido de sentido; aí o Self está se manifestando na minha ou na sua vida” (GAMBINI, 2023, p. 164). É o divino, em sua forma numinosa.
Referências para este texto:
GAMBINI, Roberto. A Voz e o Tempo: reflexões para jovens terapeutas. 4 ed. Cotia-SP: Ateliê Editorial, 2023.
JUNG, C.G. Psicologia da Religião Ocidental e Oriental/ Interpretação Psicológica dos Dogmas da Trindade. Rio de Janeiro: Editora Vozes. Obras Completas, v. 11/2. 10ª. ed., 2013.
JUNG, C. G. Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo. Rio de Janeiro: Editora Vozes. Obras Completas, v. 9/1. 11 ed., 2013.
SAMUELS, Andrew. Jung e os Pós-Junguianos. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2024.




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